quinta-feira, 24 de novembro de 2011

AQD 32 - O Conserto: Parte I - Os mecânicos.

Pronto! Por uma razão ou por outra você tem nas mãos um AQD32. E, como o mundo nunca é justo, com certeza está precisando de reparos.

Obviamente a primeira coisa que você irá procurar é um mecânico. Mas qual?

A maioria dos mecânicos náuticos hoje em dia, apenas trocam peças.  As oficinas dos clubes estão cheias deles, e seus preços geralmente são altos, assim como as peças que irão trocar. Mas tranquilize-se. Nenhum deles vai querer pegar o seu motor.

Como toda a antiguidade, seu motor não precisa de um mecânico moderno. Com mentalidade moderna. Precisa de um restaurador, um artesão que irá recuperar peça a peça, com cuidado e paciência. E o conhecimento profundo desses motores é imprescindível.
 
Quando adquirí os meus, nada sabia de motores a diesel, tendo ouvido apenas lendas. No processo de reparos de minha parelha, encontrei vários picaretas, que não nomearei aqui, mas que me forçaram a conhecer meus motores melhor do que eles.

A minha odisséia até conseguir sucesso, ilustra perfeitamente os pecados capitais nos quais um proprietário de barcos pode incorrer.

O primeiro pecado : "O baratinho".

Fui apresentado a um mecânico de aviação, e o contratei seguindo a velha tradição do "improvisador" e do "barato", tão ao gosto nacional. E entrei bem. Ele podia ser ótimo com aviões, mas com diesel, era pouco melhor que uma velhinha doceira. Ia desmontando e fazendo observações do tipo "Essa peça DEVE fazer isso". "Aquela outra DEVE fazer aquilo". E a cada "DEVE" , eu ia ficando mais apavorado. 

Quando enfim re-montou um dos motores, foi xabú geral. Queimou todas as velas de aquecimento e o bicho quase explodiu. Não precisei despedí-lo, pois ele mesmo, envergonhado, sumiu sem deixar vestígios.

O Segundo pecado: " Não levantar a ficha do mecânico no mercado" 

Logo após esse desastre, como podem bem adivinhar, fiquei desolado. A cada clube que ia em busca de técnicos, a resposta era a mesma: "Não consertamos esse motor". E desanimava ainda mais. 
Chegando então a um famoso Iate Clube no Rio de Janeiro, encontrei meu campeão. Seu falecido pai  havia trabalhado naqueles motores a vida inteira, e os conhecera como ninguém. E assim, como se conhecimento mecânico se transmitisse pelo DNA, contratei mais esse. E, como não podia deixar de ser, incorrí logo em outro sub-pecado: "Incluir as peças no preço final da contratação". 

De posse desse argumento, o safado me pediu um adiantamento para comprar as peças. Como trabalhava muito naquela época e não tinha tempo para nada, desembolsei-lhe a quantia desejada, ficando feliz em terceirizar a administração dos trabalhos. 
Só que o enrolão era famoso por pegar dinheiro com o novo cliente e aplicar nos motores dos clientes anteriores, tal qual numa das famosas pirâmides financeiras dos anos noventa. E os meus ficaram a espera do proximo otário.

O Terceiro Pecado : "Desconhecer profundamente o assunto, e distanciar-se dos trabalhos"

Eu conhecia muito  motores de popa, mas, como disse, nada de diesel. E, com meu emprego sugando cada minuto do meu tempo, não me preparei o suficiente. É claro que fui roubado escandalosamente durante todo o processo. A cada dia que perguntava como estavam meus motores, a resposta era sempre essa: "A caixa-dágua (da refrigeração) está na solda. Ainda não voltou". Como tudo desconhecia, ia aceitando as desculpas. Até que meu enorme e elástico saco estourou. 
Naquela manhã, convoquei-o para uma reunião fora dos muros do clube. Uma vez lá, apertei-o para que me falasse a verdade. Como ele começasse a elevar o tom de voz , vi tudo vermelho e parti para cima dele.     
Ele era grande. E gordo. Principiou (ou fingiu)  um ataque do coração, e o circo se formou.
Para encurtar a estória, ele se comprometeu a me entregar os motores montados do jeito em que estavam, em um mês , nada mais me cobrando.  E assim, amarguei outro prejuizo.
Soube mais tarde que repetiu a mesma brincadeira com um bicheiro. Mas esses profissionais são conhecidos pelo seu pavio curto, e o enrolador teve que se esconder para não morrer.
Espero sinceramente que o bicheiro o tenha encontrado.  
   
Minha avó me disse uma vez que herdei a persistência de meus ascendentes austríacos e a teimosia dos meus portugueses, e por esse motivo, não me dou por vencido. Já escolado, e tendo ouvido estórias escabrosas sobre mecânicos, procurei evitar os pecados anteriores, pesquisei com donos de AQD32 e encontrei um com muita expertise. E assim, obtive sucesso, sendo ele o único que toca em meus motores, além de mim mesmo.
   
Essa longa estória, além de abusar de sua paciência, teve como razão a ilustração de alguns erros comuns, afim de que sejam evitados.O mecânico certo é o melhor início para que sua restauração tenha sucesso.

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